
Percebe-se, na educação de surdos atual, uma fragilidade decorrente do predomínio de práticas pedagógicas audistas. Esse modelo tradicional, muitas vezes, deixa de considerar a identidade cultural, a singularidade linguística e as formas essencialmente visuais de processamento cognitivo da comunidade surda. Essa realidade é intensificada pelo uso limitado de recursos tecnológicos contemporâneos e de metodologias inovadoras no atendimento a esses estudantes. Como consequência direta, há um impacto significativo no aprendizado da Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua (L2), além de restrições no acesso pleno aos conteúdos curriculares, o que acaba comprometendo a consolidação da educação bilíngue e o desenvolvimento da autonomia dos alunos surdos e com deficiência auditiva.
Como resposta a esse cenário e movido pelo desejo de mudar essa realidade, nasceu o projeto cultural e literário intitulado “Onde Está o Moqueca?”. Trata-se de uma iniciativa voltada para o estímulo da criatividade, da expressão literária e da autoria de crianças e adolescentes surdos. Contemplado pelo Edital 19/2024 – Cultura para as Infâncias, sob a chancela do FUNCULTURA, o projeto foi sediado no espaço da Biblioteca Pública Municipal de Vila Velha – Major Fraguinha, localizada no bairro histórico da Prainha.

A ação envolveu diretamente a participação ativa de alunos surdos da rede pública de ensino na criação de videolivros em Língua Brasileira de Sinais (Libras), narrando a história “Onde Está o Moqueca?”. O processo culminou na gravação e edição de produções que enriquecem os acervos públicos com a legitimidade da literatura surda, promovendo a representatividade e transformando a biblioteca em um espaço cultural altamente inclusivo.
A execução dessa proposta lança luz sobre a importância estratégica da parceria estabelecida entre a Superintendência Regional de Educação (SRE) de Cariacica e a Secretaria Municipal de Educação (SEMED) de Vila Velha. Esta articulação interinstitucional fundamenta-se no princípio do cuidado contínuo com o percurso escolar do estudante surdo. Como a alfabetização e o desenvolvimento linguístico inicial ocorrem prioritariamente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, sob a competência municipal, e a responsabilidade final pela escolarização e oferta do Ensino Médio recai diretamente sobre a rede pública estadual, o regime de colaboração torna-se indispensável. Garantir que os profissionais acessem metodologias que respeitem a epistemologia surda assegura uma transição pedagógica sólida e prepara o estudante para os desafios futuros com maior nível de letramento.
Toda a abordagem metodológica e as ações formativas foram concebidas e coordenadas a partir da minha atuação como técnico bilíngue do NEAPIE Cariacica em 2026. Como professor de Libras, escritor bilíngue e ilustrador de literatura infantojuvenil, busco unificar de forma orgânica a dimensão cultural e a prática educacional, focando na ampliação do desenvolvimento cognitivo do estudante surdo e no fortalecimento da Libras como sua primeira língua (L1) e do português escrito como L2.
É fundamental destacar que essa metodologia foi estruturada com base nas experiências coletadas durante o meu período de estágio supervisionado e pesquisa de campo aplicada, realizados no decorrer da minha graduação em Letras Libras Licenciatura. Essa prática pedagógica inovadora foi testada em ambientes escolares reais da rede pública, abrangendo turmas do Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II e turmas do Ensino Médio, mostrando-se altamente promissora e apresentando excelentes resultados na evolução linguística e no engajamento dos estudantes.


Para compartilhar e validar essas ferramentas com os profissionais que atuam diretamente na área da surdez, realizamos um cronograma analítico de oficinas formativas ao longo do primeiro semestre de 2026.

No dia 29 de maio de 2026, realizamos a Oficina de Tradução em Tempo Real, direcionada aos profissionais Tradutores Intérpretes de Libras e Língua Portuguesa (TILSP) e da área da deficiência visual. No período da manhã, os participantes atuaram de forma imersiva como observadores analíticos no laboratório de criação de videolivros, registrando as escolhas linguísticas espontâneas em Libras e os recursos visuais utilizados na narrativa construída entre mim e as crianças surdas. No período da tarde, a dinâmica transformou-se em uma atividade prática de construção coletiva da versão em voz da história gerada pela manhã. Os profissionais TILSP debateram a fluidez interpretativa, o contexto discursivo e os desafios éticos da mediação, com o objetivo técnico de efetuar a tradução preservando a exata carga emocional, estética e expressiva inerente à literatura surda ao transpô-la para o português, que possui uma estrutura oral-auditiva. Os profissionais da deficiência visual também contribuíram significativamente na elaboração da audiodescrição.

No dia 19 de junho de 2026, conduzimos a Oficina Pedagógica de Transposição Escrita, destinada ao corpo docente de professores bilíngues, utilizando o material textual produzido na formação anterior. No turno da manhã, os professores acompanharam a estruturação do pensamento literário visual dos alunos junto ao escritor. À tarde, os docentes exploraram o texto sob a ótica de metodologias inovadoras de ensino. Foram apresentadas estratégias didáticas e visuais para converter e associar esse conteúdo literário visual ao ensino estruturado do português escrito. A finalidade foi instrumentalizar os professores para que as habilidades essenciais preconizadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), trabalhadas na sala de aula regular, pudessem ser aplicadas por meio de uma metodologia genuinamente surda, otimizando tanto o trabalho colaborativo quanto o atendimento personalizado no âmbito do AEE. Na ocasião, materiais baseados em áreas modelos foram devidamente produzidos e entregues para a replicação imediata dos docentes.

A culminância das atividades ocorreu na manhã do dia 26 de junho de 2026, com o evento solene intitulado “Protagonismo surdo na prática: exibição, leitura e circulação da obra”. O encontro celebrou o lançamento oficial e a circulação dos videolivros acessíveis com a presença da comunidade escolar, familiares e representantes da Secretaria de Educação Municipal de Vila Velha, da Secretaria de Cultura e da GEEPEI.
Nesta ocasião, foi realizada a exibição dos videolivros do projeto ‘Oi, Oi, Jorginho!’, iniciativa contemplada pelo Funcultura por meio do Edital 04/2023 – Valorização da Diversidade Cultural Capixaba (Secult-ES), estimulando novas criações artísticas e literárias na comunidade surda. Além disso, o evento contou com a contação de história do livro ‘O Jardim da Helena’, contemplado pelo Edital 021/2020 de Literatura da Secult-ES (Funcultura). A apresentação foi conduzida pelas artistas surdas Amanda Caroline Furtado Freitas e Daniely Silva Cristo, contando ainda com a atuação da intérprete de Libras Jakeline Soares no papel da personagem.
A realização desse momento só foi possível graças ao apoio de parceiros fundamentais. Fica o meu sincero agradecimento ao meu amigo surdo Kellvi Sampaio, por todo o suporte e parceria ao longo da execução da oficina; à pedagoga do Neapie Cariacica, Elaine Cristina, por seu apoio constante às minhas ações voltadas à comunidade surda; e ao assessor pedagógico da SRE Cariacica, Eduardo Medeiros, pelo incentivo contínuo à construção de parcerias na perspectiva da educação especial inclusiva. Expressamos também nossa gratidão a todos os integrantes do Neapie Cariacica por apoiarem e impulsionarem minha trajetória profissional, tanto no campo cultural quanto no educacional.
No período da tarde, realizou-se a oficina prática denominada “Construção de narrativas em Libras: do imaginário à estrutura da história”, direcionada especificamente a professores bilíngues e instrutores surdos. Nesta etapa, os educadores vivenciaram o papel de alunos, experimentando os mecanismos de criação de histórias fundamentadas no universo do projeto. Foram detalhadamente explorados os elementos da literatura surda, tais como o uso de classificadores linguísticos, a organização do espaço cênico, o emprego de expressões faciais e corporais e a estruturação temporal visual, demonstrando na prática como essa metodologia pode ser aplicada com alta qualidade no Ensino Médio. Ao término dos trabalhos, os participantes receberam dois kits de materiais pedagógicos para serem replicados em suas respectivas unidades escolares.
Como fruto direto dessa trajetória e das vivências construídas ao longo das oficinas, temos o orgulho de apresentar os videolivros acessíveis produzidos durante o projeto. As obras convidam o público a explorar a literatura surda e as paisagens capixabas a partir de narrativas visuais e bilíngues envolventes. Assista e prestigie as produções a seguir:
<3
No fim das contas, ‘Onde está o moqueca?’ é a prova viva de que, com afeto, parceria e dedicação, sonhos se realizam.






